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Sonho de verão

Luis Fernando Verissimo

Do baú. As pessoas são mais inteligentes dormindo do que acordadas. Todas sonham, mesmo que não se lembrem depois, e seus sonhos são sofisticadas narrativas cifradas, de grande complexidade temática e riqueza simbólica. Meninos de rua sonham como Jorge Luis Borges, debutantes vazias levam a arte da elipse visual a extremos de criatividade e até engenheiros são surrealistas oníricos, quando dormem. O sonho não é apenas o grande nivelador - qualquer cerzideira escreveria como a Clarice Lispector, se apenas pudesse botar a trama dos seus sonhos num papel -, também é o grande apagador de fronteiras sociais: os sonhos da prostituta e do arcebispo estão plugados no mesmo provedor de signos e disfarces de seus desejos e medos para todo o mundo. Os sonhos só não são a linguagem comum da espécie porque ainda não se chegou a um vocabulário comum para entendê-los. As mensagens são as mesmas para todos nós, variam as nossas interpretações. Há dias tive um sonho inteligentíssimo, e claríssimo – enquanto eu sonhava. Mas aí, danação, acordei, e não entendi mais nada.

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Eu estava no meio do mar, mexendo braços e pernas para me manter à tona, e de alguma forma eu sabia que quilômetros abaixo dos meus pés estava a carcaça do Titanic. De acordo com a ortodoxia freudiana, sonhar com água tem alguma coisa a ver com sexo. Pensando bem, para a ortodoxia freudiana tudo tem alguma coisa a ver com sexo, água é só o mais óbvio. Mas como já estou naquela idade em que nem a ortodoxia freudiana funciona como antes, interpretei minha situação como a continuação, no mundo cifrado, do pensamento que começara antes de dormir. Isso raramente funciona, como você sabe. Pouco adianta você pensar com força na Luana Piovani antes de dormir, ela não aparecerá no seu sonho. Pode aparecer um símbolo da Luana Piovani, mas isso você só saberá depois, na interpretação (era aquele pássaro!), quando for tarde demais. Deduzi que eu estava sonhando o meu pensamento sobre a condição humana. O Oceano Atlântico era o Tempo. Eu, modestamente, era a Humanidade.

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O que era a carcaça do Titanic no fundo do mar? Me lembrei de ter ficado impressionado na primeira vez em que vi uma reconstituição gráfica do Titanic no chão do oceano, depois que localizaram os destroços. Como era fundo o fundo! O Titanic estava no meu sonho como referência, portanto. A distância entre a superfície do mar e o chão onde repousava sua carcaça simbolizava o tempo transcorrido desde a criação do mundo, a minha ridícula altura representava o tempo da nossa existência no planeta. Contando todas as nossas formas pré-históricas desde o primeiro hominídeo somos uma espécie recentíssima. E mesmo na síntese histórica do meu corpo agitado, só a porção da testa para cima representava o homem agrícola-pastoril-industrial que começamos a ser anteontem, em termos relativos. Durante a maior parte, quase 90%, do nosso passado como gente fomos caçadores-catadores. Ainda temos os dentes caninos, e uma vaga inquietude de nômades, para nos lembrar desse tempo. Dizem até que éramos melhores então: comíamos mais proteínas e tínhamos uma dieta mais variada antes de descobrir a agricultura - e fazíamos mais exercício. Com a agricultura e a domesticação de animais vieram as monoculturas, o sedentarismo e os primeiros grupos humanos a conviver com dejetos, os seus e os dos seus bichos. Nasciam, ao mesmo tempo, a civilização e a falta de higiene.

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Qual era, então, o meu significado, na superfície daquele oceano, a quilômetros do seu fundo e da origem da vida? Acho que eu era um símbolo da megalomania humana, da nossa absurda pretensão que 10 mil anos de existência ereta nos dão um significado maior do que o da libélula, que vive só um dia. Em comparação com o tempo transcorrido desde que a primeira ameba se dividiu no miasma borbulhante, a espécie humana também viveu só um dia. E uma noite, para sonhar com ele. Me debatendo no meio do oceano simbólico, eu não passava de um mosquito na superfície de um caldeirão de melado, convencido que toda aquela doçura era em seu louvor. A síntese do meu sonho era que somos uns mosquitos pretensiosos.

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Mas aí veio uma barcaça embandeirada com a Cleópatra e o dom Pedro II abraçados na popa, enquanto alguém na proa gritava na minha direção:

- "Deleta! Deleta!"

Acordei e o significado do sonho ficou obscuro.


Domingo, 27 de fevereiro de 2005.



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